Sobre o Coletivo Espaço Marxista

Apresentação

1. O Coletivo Espaço Marxista é inspirado em Marx, Engels, Lênin e Trotsky e busca a construção revolucionária do socialismo rumo ao comunismo. Entendemos essa busca libertária como uma luta cotidiana, que envolve o engajamento e diálogo com as dimensões cultural, artística, ecológica e espiritual da vida, em suas diversas manifestações.

2. Tal construção revolucionária requer um diálogo plural e a conjugação de diversas lutas. A classe trabalhadora é a protagonista da mudança, pois a luta de classes de nossos tempos segue sendo a disputa entre capital e trabalho. Essa luta, contudo, modernamente precisa abordar múltiplas questões- os povos indígenas, quilombolas, juventude, mulheres, movimento negro, comunidade LGBTT, meio ambiente, religião, cultura etc.

3. Nessa longa luta pela construção revolucionária do socialismo rumo ao comunismo, apoiamos os diversos movimentos emancipatórios, progressistas e de resistência popular pelo mundo, ainda que estejam baseados apenas em critérios de liberdade democrático-burguesa, étnicos/ nacionais ou religiosos.

3 (1). Isso porque, apesar de não depositarmos confiança no institucionalismo burguês, nós somos, como Lênin, pela "república democrática enquanto melhor forma de Estado para o proletariado, no regime capitalista" ("O Estado e a revolução"). No regime capitalista, bem entendido. É evidente que há diferença entre uma ditadura aberta e uma democracia liberal-burguesa, mesmo que essa última não deixe de ser expressão da ditadura de classe burguesa. Tais ordenamentos "democráticos" trazem consigo constituições e leis que outorgam formalmente direitos e garantias fundamentais, o que, além da imposição das normas de direito internacional, é causa de tensionamento constante entre a classe trabalhadora e os grupos dominantes e entre os grupos dominantes entre si.

3 (2). É dever dos marxistas utilizar tais contradições dos ordenamentos democrático-burgueses em benefício da classe trabalhadora, de modo que possa desenvolver sua consciência de classe -tarefa facilitada pela relativa liberdade "democrática"- e extrair mais e mais direitos da classe dominante. Em sentido contrário, comete traição de classe o marxista que se recusa a apoiar lutas pró-democracia, sob a alegação de que se trata de "democracia burguesa".

3 (3). Entendemos, portanto, que à luz do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo a tarefa meramente democrático-burguesa pode estar presente, inclusive em decorrência de retrocesso nos ordenamentos que já alcançaram tal estágio- golpe de Estado, intervenção armada estrangeira etc. Apoiamos, nessas condições, a resistência democrático-burguesa, deixando claro que: a) não capitulamos ao "etapismo" mecanicista stalinista; b) não capitulamos às burguesias "nacionais" -conceito sem sentido diante da internacionalização do capital- como sendo progressistas em relação às burguesias estrangeiras, portanto somos inimigos do frentepopulismo, mas estamos cientes de que conforme a conjuntura é preciso unidade pontual com os setores burgueses "democráticos".

3 (4). No mesmo sentido, a libertação nacional ou étnica pode estar presente como tarefa imediata, diante de opressão externa ou interna, e também merecerá nosso apoio. Isso não significa capitular ao chauvinismo. Como diz Trotsky no "Programa de Transição": "Quando o pequeno camponês ou o operário falam de defesa da pátria, falam da defesa de sua casa, de sua família e da família de outrem contra a invasão, contra as bombas, contra os gases asfixiantes (...) no patriotismo dos oprimidos há um germe progressista que é necessário saber compreender para dai tirar as conclusões revolucionárias necessárias".

3 (5). Portanto, apoiamos as lutas de libertação nacional ou étnicas ao redor do mundo -mesmo que em unidade pontual com setores "progressistas" das burguesias locais, como dito acima-, entendendo que tal apoio faz parte da própria tarefa internacionalista que os marxistas devemos cumprir.

3 (6). Acerca da luta popular de resistência com base na religião, nós defendemos uma interpretação mais dialética da "Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel" de Marx, e portanto uma interpretação que leva em conta as mais diversas tradições, culturas, estágios de desenvolvimento e contradições dos povos do mundo. Nesse sentido, quando Marx, antes da célebre caracterização da religião como "ópio do povo", define a religião como "expressão da miséria real e protesto contra ela", mais ainda, como "soluço da criatura oprimida", ou seja, quando destaca a opressão e o protesto como elementos do fenômeno religioso, deixa em aberto a possibilidade da religião como instrumento de inserção e engajamento na vida cotidiana.

3 (7). Pensamos que a religião, conforme diz Roger Garaudy, inclusive em vista de seu caráter superestrutural, pode ser, de acordo com a conjuntura, "fermento e não ópio" e, ademais, os grandes temas teológicos -existência ou não de Deus, vida após a morte etc.- fogem ao escopo do marxismo. Assim, apesar de estarmos cientes de que o ateísmo é historicamente associado ao marxismo e às revoluções nele embasadas, não consideramos o ateísmo elemento fundamental no marxismo, bem como nos opomos ao discurso antirreligioso -que, em regra, de tão inflamado é como que um discurso religioso ao contrário- dentro do marxismo. Defendemos o respeito e a plena liberdade de crença de todos e para todos os nossos militantes.

3 (8). Preferimos um crente revolucionário a um ateu reacionário. Apoiamos a concepção religiosa, pois, na medida em que se manifeste de forma progressista- o PSUV venezuelano cristão, os movimentos de resistência anti-imperialista islâmicos etc. No Brasil, em particular, a luta de resistência em torno das religiões de origem afroíndia tem evidente caráter popular e antirracista. Esse caráter progressista e popular exclui, obviamente, as manifestações reacionárias dos fundamentalismos, os quais, pelo contrário, são inimigos a ser combatidos.

4. Ao mesmo tempo em que apoiamos as lutas "parciais" acima, nós nos esforçamos para que adotem um caráter "integral", isto é, que reconheçam que apenas a ruptura com o atual sistema econômico (o capitalismo) pode dar cabo das diversas opressões.

5. Acreditamos que há uma ofensiva reacionária em curso, pela qual o imperialismo tenta recuperar e manter posição após a crise econômica mundial dos últimos anos e diante do ascenso de um pólo alternativo sino-russo. Essa ofensiva se dá em todos os níveis -jurídico, institucional, econômico, militar- e, na ausência de um contraponto soviético, nenhum lugar do mundo está a salvo, notadamente à luz de novas e mais modernas formas de controle, de drones à internet.

6. Em vista dessa ofensiva, nós defendemos uma frente única anti-fascista e anti-imperialista reunindo todo o campo popular, progressista e de esquerda, no Brasil e no mundo. No cenário brasileiro, isso nos leva a cerrar fileiras contra o golpismo de direita, sem que deixemos de ser, por outro lado, oposição aos governos petistas. No cenário internacional, ombreamos com os BRICS, a América Bolivariana, os movimentos do nacionalismo burguês que mesmo hoje ainda possam desempenhar papel progressista, como na Síria assadista e na Palestina (inclusive de matiz religioso- Hamas e Hezbollah, por exemplo), Irã, os Estados Operários de Cuba e Coreia do Norte etc., sempre na busca por um mundo multipolar (por ser melhor para classe trabalhadora mundial) e sem jamais abrirmos mão de nossos próprios princípios e críticas.

7. No aspecto teórico, o Coletivo Espaço Marxista rejeita o academicismo e o pedantismo. Entendemos que não há necessidade de definições e categorias fechadas sobre todo e qualquer evento passado e presente da luta de classes. Como disse Trotsky diante das complexidades do Estado Operário soviético, os doutrinários querem sempre "fórmulas categóricas", pois "as questões da sociologia seriam bem mais simples se os fenômenos sociais tivessem sempre contornos precisos" ("A revolução traída"). Todavia, nem sempre o conceito, por mais útil que seja, dá conta de definir o fenômeno, e às vezes mais serve para confundir do que para esclarecer. Portanto, rejeitamos as estéreis discussões dogmáticas que, além de desagregarem a esquerda, configuram verdadeira perda de tempo diante das tarefas concretas da luta de classes.

Contato

Os companheiros interessados em dialogar conosco ou enviar contribuições podem nos contactar pelo email espacomarxista@gmail.com.
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